CUIABÁ

MOTOCICLISTAS X MOTOQUEIROS

Projeto de Lei quer proibir “rolezinhos” de motos em Cuiabá, mas diferencia motociclistas de infratores

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A Câmara Municipal de Cuiabá está analisando o Projeto de Lei nº 617/2025, de autoria do vereador Eduardo Magalhães, que propõe a proibição dos chamados “rolezinhos” de motocicletas no município. A proposta visa coibir reuniões de motociclistas que praticam direção perigosa, causam tumultos, desrespeitam leis de trânsito e perturbam o sossego público com barulho excessivo. A iniciativa tramita na Comissão de Segurança Pública da Casa.

Segundo o vereador, esses eventos — popularizados em outras cidades e recentemente incorporados à rotina noturna de Cuiabá — representam risco à segurança e à ordem urbana, especialmente em datas comemorativas, como o Natal de 2024, quando cerca de 250 motociclistas causaram grande transtorno, exigindo mobilização policial e gerando gastos públicos.

Apesar do parecer de inconstitucionalidade emitido pela Comissão de Constituição e Justiça, o plenário aprovou a continuidade da tramitação do projeto, que foi então remetido à Comissão de Segurança Pública para análise de mérito. O relator do projeto emitiu parecer favorável, destacando que a medida visa promover a paz social e proteger a população, especialmente idosos, crianças e pessoas com deficiência, frequentemente afetadas pelo barulho e pelo comportamento imprudente.

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Contudo, o projeto recebeu uma emenda crucial do vereador Chico 2000, que trouxe um importante esclarecimento jurídico: a diferenciação entre “rolezinho” e “rolê”. A emenda garante que motociclistas que utilizam suas motos de forma responsável — seja por lazer, turismo ou deslocamento — não sejam penalizados pela legislação.

“O objetivo é proteger os ordeiros e punir os infratores”, explicou Chico 2000. “Não podemos permitir que todos sejam enquadrados como infratores por conta de uma minoria que desrespeita as leis e coloca vidas em risco.”

O assessor parlamentar Adriano Miller, representante do gabinete de Eduardo Magalhães, afirmou que o projeto nasceu de uma demanda popular crescente. “Cuiabá nunca teve essa prática como costume, mas nos últimos dois anos, os ‘rolezinhos’ passaram a incomodar bastante. A população pediu por ação e o projeto foi a resposta”, disse.

A proposta também suscitou reflexões sobre o uso dos termos “motociclista” e “motoqueiro”, frequentemente confundidos. Adhemar Santana Franco, coordenador da subsede Cuiabá do Motoclube Bodes do Asfalto, esclareceu a origem da distinção: “O termo ‘motoqueiro’ passou a ser usado de forma pejorativa, mas ele surgiu entre os motociclistas que também eram roqueiros, como Elvis Presley. Hoje, chamam de motoqueiro quem faz baderna. Mas o correto é dizer que todo condutor de moto deve respeitar as leis de trânsito, seja ele chamado como for.”

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Com a nova redação proposta pela emenda, o Projeto de Lei segue em tramitação com expectativa de aprovação, tendo como foco a regulamentação do uso coletivo das motocicletas nas vias públicas e o fortalecimento da convivência urbana segura. A população poderá acompanhar os desdobramentos no site oficial da Câmara de Cuiabá, onde o documento está autenticado digitalmente conforme a Lei nº 14.063/2020.

Colaborou Luiz Henrique Menezes

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AGRO & NEGÓCIOS

Indígenas Parecis mostram que produzir também é preservar a dignidade

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Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, abriga uma experiência pioneira no Brasil: a produção agrícola conduzida por indígenas dentro de seu próprio território, de forma organizada, coletiva e com olhar voltado para o futuro.

Durante reunião com lideranças indígenas da região, os pré-candidatos Dra. Paula Boaventura, à Câmara Federal, e Antônio Galvan, ao Senado, ouviram relatos fortes sobre a realidade dos Haliti-Pareci, povo que há anos enfrenta burocracias, embargos, preconceitos e visões ultrapassadas sobre o que é ser indígena no Brasil atual.


fAdilson Muziwane/Paula Boaventura

A principal mensagem deixada pelas lideranças foi clara: o indígena de hoje não pode ser condenado a viver como se o Brasil ainda estivesse em 1500. A cultura permanece, a tradição permanece, a família permanece. Mas o mundo mudou. A alimentação mudou. A saúde exige melhores condições. A educação exige investimento. E a dignidade exige trabalho.
“Somos seres humanos, somos brasileiros e temos o direito de viver bem dentro do nosso território, através do nosso próprio trabalho”, resumiu uma das lideranças.

Os Pareci defendem uma política pública que reconheça a diversidade dos povos indígenas. Só em Mato Grosso, são dezenas de etnias, cada uma com sua história, seu tempo de contato, sua cultura e sua realidade. Por isso, segundo eles, não é possível que uma única visão ideológica, muitas vezes construída longe das aldeias, determine o futuro de todos.

A experiência agrícola dos Pareci mostra que é possível produzir, gerar renda, manter a cultura e melhorar a qualidade de vida. Arnaldo Zuni Zakaê relata que, antes da agricultura, muitas famílias dependiam quase exclusivamente de aposentadorias, cargos na saúde ou na educação. Hoje, a produção abriu novas oportunidades: trabalho nas lavouras, cooperativas, associações, operação de máquinas, gestão, pesquisa, tecnologia e distribuição de renda.

O resultado, segundo os relatos, aparece na vida real. A população aumentou, a alimentação melhorou, a mortalidade caiu e os jovens passaram a enxergar futuro dentro do próprio território. “Saúde não se faz só com remédio. Saúde se faz com alimentação”, afirmou Arnaldo.

Também chamou atenção a participação das mulheres indígenas. Sônia Aparecida Zoazo Kamaero, agricultora, formada em Direito e especialista na área ambiental, explicou que a produção não rompeu com a cultura familiar, mas se adequou a ela. Segundo ela, na tradição Pareci, a mulher sempre teve papel fundamental na colheita, na formação da família e na transmissão de valores. Hoje, além disso, participa das decisões técnicas e econômicas.


“O homem é o guarda-chuva, a mulher é o pilar. Um não anda sem o outro”, afirmou Sônia.
O que os Pareci pedem não é privilégio. É segurança jurídica. É o direito de planejar a longo prazo. É poder acessar crédito, licenciamento, tecnologia e comercialização sem viver sob ameaça permanente de que uma mudança política ou uma interpretação burocrática paralise tudo.

Antônio Galvan, ex-presidente da Aprosoja MT e da Aprosoja Brasil, defendeu que os indígenas tenham direito real ao uso produtivo de parte de seus territórios, sempre com responsabilidade. Para ele, a experiência Pareci prova que o trabalho melhora a vida nas aldeias e pode servir de exemplo para outras etnias que desejam produzir.

Dra. Paula Boaventura também reforçou compromisso com a regulamentação, com a segurança jurídica e com políticas públicas que respeitem a autonomia indígena. De origem Bororo, ela destacou a importância da família, da tradição e do desenvolvimento como caminhos que podem andar juntos.

A reflexão que fica é simples: não se combate pobreza mantendo povos inteiros dependentes de assistencialismo. Também não se preserva cultura impedindo que indígenas estudem, produzam, empreendam e decidam seu próprio futuro.
O povo Pareci mostra que tradição e modernidade não são inimigas. O indígena pode preservar sua língua, seus rituais, seus pajés, sua família, suas mulheres, seus jovens e, ao mesmo tempo, plantar, colher, comercializar, estudar, usar tecnologia e melhorar de vida.
O Brasil precisa abandonar a visão romântica e atrasada de que o indígena só é indígena se estiver isolado da modernidade. Ser indígena é pertencer a um povo, a uma história e a uma cultura. Mas também é ser cidadão brasileiro, com direito à dignidade, ao trabalho, à renda e à liberdade de escolher o próprio caminho.
Campo Novo do Parecis talvez esteja mostrando ao país uma das discussões mais importantes do nosso tempo: o futuro indígena não deve ser imposto por gabinetes, ONGs ou ideologias. Deve ser construído ouvindo quem vive na aldeia, quem planta, quem colhe, quem cria os filhos e quem sabe, na prática, o que significa lutar por dignidade dentro do próprio território.
Os Pareci foram pioneiros. Agora, o desafio político é transformar essa experiência em política pública séria, segura e respeitosa, para que outras etnias que desejem seguir esse caminho também possam ter oportunidade de produzir, prosperar e viver melhor.

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por Luiz Henrique Menezes

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