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Luciene Carvalho é homenageada em sarau em Cuiabá neste sábado

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Foto: KAREN MALAGOLI / ALMT

Poesia, dramaturgia, música, performance são algumas das expressões artísticas de Luciene Carvalho, que escolheu a ‘palavra’ como ofício. Nascida em um Mato Grosso ainda unificado, em Corumbá, é cuiabana desde 1974 e a primeira mulher negra e periférica a compor a Academia Mato-grossense de Letras.

Tamanha a sua representatividade que é a homenageada para a nova ação cultural da Assembleia Social (Coordenadoria de Integração, Cidadania e Cultura da Assembleia Legislativa de Mato Grosso): o Sarau Luciene Carvalho, com primeira edição neste sábado (5), a partir das 18h30, no Quilombo de Quintal, na Rua Feliciano Galdino, 734, bairro Porto, em Cuiabá, com entrada gratuita.

O local é a própria casa de Luciene Carvalho, um dos característicos quintais cuiabanos, onde ela e os seus estabeleceram quilombo: espaço de acolhida, de fortalecimento e de união de pessoas pretas, pobres, artistas. O bairro não poderia ser mais poético: Porto tem dimensão histórica, é chegada e comunicação (pelos rios) e representa colo, tranquilidade, repouso.

Para receber o público, haverá uma performance que mescla as poesias de Luciene Carvalho com as músicas interpretadas por Rita Cássia e Matheus Farias. Em seguida, o microfone fica aberto para quem quiser apresentar sua arte (música, poesia, teatro, dança…). Comidas e bebidas serão vendidas por microempreendedores da região.

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“Eu sempre vejo o quanto a poesia é plástica e agora ela vai tomar forma de um quintal de acolhimento. Eu estou muito completada quando eu vejo o lugar de meus ancestrais virando espaço de acolhimento de amantes da poesia. Eu queria muito que o quintal fosse um ‘quintal’, que não tivesse demasiada maquiagem, que fosse tudo muito verdadeiro e que as pessoas possam usufruir um espaço do tempo, de uma cultura, de uma arte que tem sabor próprio”, reflete Luciene sobre o evento, bastante emocionada. 

Sarau é atividade milenar que agrega reunião, troca de experiências e muita arte. Alguns estudiosos apontam que a origem da palavra venha do francês soirée (reunião noturna), do latim serotinus (pela tarde) ou do galego serao (anoitecer). Por isso, a escolha do horário do 1º Sarau Luciene Carvalho, ‘de noitinha’, às 18h30.

A iniciativa é da Assembleia Social, coordenadoria da ALMT que visa promover ações de resgate da cidadania e de incentivo à cultura. O novo projeto atende a alguns objetivos do setor, como valorização à produção cultural mato-grossense, formação de plateia e acesso popular a atividades artísticas. “Luciene Carvalho é a própria poesia. Sua forma de ver o mundo, sua defesa, o afeto, a beleza e a riqueza oferecem para nós todos um transbordamento poético. E que honra a nossa de reconhecer essa gigante em vida e contribuir para que as pessoas possam enxergar o mundo através das lentes da arte”, comenta Daniella Paula Oliveira, coordenadora da Assembleia Social.

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A homenageada

Luciene Carvalho é poeta nascida em Corumbá (MS) e tem 14 livros publicados, a maioria de poesias. Foi eleita e empossada na Academia Mato-grossense de Letras em 2015, cerimônia com grande participação de jovens negros das artes de rua.

A multiartista é também diretora de Teatro, formada pela MT Escola de Teatro (Unemat, campus Cuiabá), é personagem de uma cinebiografia da cineasta Juliana Curvo (Luciene, MT, 2020, 73 minutos), gravou um CD de poesia declamada dialogando com o rap, tem algumas publicações, experimentou parcerias de artes visuais, inspirou espetáculos de dança e de teatro, é tema de pesquisas acadêmicas, entre outros registros artísticos ou científicos.

Serviço:

1º Sarau Luciene Carvalho – Performance com poesias de Luciene Carvalho e música com Rita Cássia e Matheus Farias

Após apresentação, palco aberto

Data: 5 de novembro, a partir das 18h30

Local: Quilombo de Quintal (Rua Feliciano Galdino, 734, bairro Porto, Cuiabá)

Entrada gratuita

Fonte: ALMT

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Indígenas Parecis mostram que produzir também é preservar a dignidade

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Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, abriga uma experiência pioneira no Brasil: a produção agrícola conduzida por indígenas dentro de seu próprio território, de forma organizada, coletiva e com olhar voltado para o futuro.

Durante reunião com lideranças indígenas da região, os pré-candidatos Dra. Paula Boaventura, à Câmara Federal, e Antônio Galvan, ao Senado, ouviram relatos fortes sobre a realidade dos Haliti-Pareci, povo que há anos enfrenta burocracias, embargos, preconceitos e visões ultrapassadas sobre o que é ser indígena no Brasil atual.


fAdilson Muziwane/Paula Boaventura

A principal mensagem deixada pelas lideranças foi clara: o indígena de hoje não pode ser condenado a viver como se o Brasil ainda estivesse em 1500. A cultura permanece, a tradição permanece, a família permanece. Mas o mundo mudou. A alimentação mudou. A saúde exige melhores condições. A educação exige investimento. E a dignidade exige trabalho.
“Somos seres humanos, somos brasileiros e temos o direito de viver bem dentro do nosso território, através do nosso próprio trabalho”, resumiu uma das lideranças.

Os Pareci defendem uma política pública que reconheça a diversidade dos povos indígenas. Só em Mato Grosso, são dezenas de etnias, cada uma com sua história, seu tempo de contato, sua cultura e sua realidade. Por isso, segundo eles, não é possível que uma única visão ideológica, muitas vezes construída longe das aldeias, determine o futuro de todos.

A experiência agrícola dos Pareci mostra que é possível produzir, gerar renda, manter a cultura e melhorar a qualidade de vida. Arnaldo Zuni Zakaê relata que, antes da agricultura, muitas famílias dependiam quase exclusivamente de aposentadorias, cargos na saúde ou na educação. Hoje, a produção abriu novas oportunidades: trabalho nas lavouras, cooperativas, associações, operação de máquinas, gestão, pesquisa, tecnologia e distribuição de renda.

O resultado, segundo os relatos, aparece na vida real. A população aumentou, a alimentação melhorou, a mortalidade caiu e os jovens passaram a enxergar futuro dentro do próprio território. “Saúde não se faz só com remédio. Saúde se faz com alimentação”, afirmou Arnaldo.

Também chamou atenção a participação das mulheres indígenas. Sônia Aparecida Zoazo Kamaero, agricultora, formada em Direito e especialista na área ambiental, explicou que a produção não rompeu com a cultura familiar, mas se adequou a ela. Segundo ela, na tradição Pareci, a mulher sempre teve papel fundamental na colheita, na formação da família e na transmissão de valores. Hoje, além disso, participa das decisões técnicas e econômicas.


“O homem é o guarda-chuva, a mulher é o pilar. Um não anda sem o outro”, afirmou Sônia.
O que os Pareci pedem não é privilégio. É segurança jurídica. É o direito de planejar a longo prazo. É poder acessar crédito, licenciamento, tecnologia e comercialização sem viver sob ameaça permanente de que uma mudança política ou uma interpretação burocrática paralise tudo.

Antônio Galvan, ex-presidente da Aprosoja MT e da Aprosoja Brasil, defendeu que os indígenas tenham direito real ao uso produtivo de parte de seus territórios, sempre com responsabilidade. Para ele, a experiência Pareci prova que o trabalho melhora a vida nas aldeias e pode servir de exemplo para outras etnias que desejam produzir.

Dra. Paula Boaventura também reforçou compromisso com a regulamentação, com a segurança jurídica e com políticas públicas que respeitem a autonomia indígena. De origem Bororo, ela destacou a importância da família, da tradição e do desenvolvimento como caminhos que podem andar juntos.

A reflexão que fica é simples: não se combate pobreza mantendo povos inteiros dependentes de assistencialismo. Também não se preserva cultura impedindo que indígenas estudem, produzam, empreendam e decidam seu próprio futuro.
O povo Pareci mostra que tradição e modernidade não são inimigas. O indígena pode preservar sua língua, seus rituais, seus pajés, sua família, suas mulheres, seus jovens e, ao mesmo tempo, plantar, colher, comercializar, estudar, usar tecnologia e melhorar de vida.
O Brasil precisa abandonar a visão romântica e atrasada de que o indígena só é indígena se estiver isolado da modernidade. Ser indígena é pertencer a um povo, a uma história e a uma cultura. Mas também é ser cidadão brasileiro, com direito à dignidade, ao trabalho, à renda e à liberdade de escolher o próprio caminho.
Campo Novo do Parecis talvez esteja mostrando ao país uma das discussões mais importantes do nosso tempo: o futuro indígena não deve ser imposto por gabinetes, ONGs ou ideologias. Deve ser construído ouvindo quem vive na aldeia, quem planta, quem colhe, quem cria os filhos e quem sabe, na prática, o que significa lutar por dignidade dentro do próprio território.
Os Pareci foram pioneiros. Agora, o desafio político é transformar essa experiência em política pública séria, segura e respeitosa, para que outras etnias que desejem seguir esse caminho também possam ter oportunidade de produzir, prosperar e viver melhor.

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por Luiz Henrique Menezes

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