ABSURDO
Empresas são condenadas por acusar motorista de App por falso roubo
Publicado em
17 de setembro de 2024por
Da Redação
A juíza Patrícia Ceni, do 8º Juizado Especial Cível de Cuiabá, condenou duas empresas por acusarem falsamente o motorista de aplicativo A.S.P. por roubo de um produto. Funcionários das duas empresas espalharam foto da vítima, com informações de seu veículo e placa, nas redes sociais e registraram um boletim de ocorrência pelo falso crime. A magistrada acatou parcialmente os pedidos do advogado Pitágoras Arruda e fixou a indenização por danos em R$ 8 mil.
As empresas condenadas são a Multi Clínica Centro Estético LTDA e Alpha Comércio de Produtos Odontológicos e Hospitalares LTDA, ambas situadas em Cuiabá.
O caso ocorreu em maio deste ano. O motorista foi acionado via aplicativo pela empresa Multi Clínica para buscar um passageiro na Alpha Comércio, mas, quando chegou ao local, não havia ninguém. A vítima aguardou o prazo de cinco minutos, conforme regras do aplicativo.
Após cancelar a corrida, A.S.P. passou a ser acusado de roubar um produto de R$ 5 mil pelas funcionárias do estabelecimento e teve sua foto e dados compartilhados em um grupo de entregadores de Cuiabá. Porém, a vítima não realiza transporte de objetos, mas apenas de passageiros.
O trabalhador também teve um boletim de ocorrência registrado contra ele e foi parado pela polícia por mais de uma vez. Ao tomar conhecimento do que estava sendo acusado, A.S.P. foi à sede da Multi Clínica para solucionar o caso.
“Chegando no local, para surpresa do requerente, uma empregada do estabelecimento lhe informou que tudo não passou de uma confusão, já que o erro ocorreu por parte de uma das funcionárias, que após o cancelamento pediu um segundo motorista por aplicativo, sem que fosse comunicado o proprietário e outros empregados da requerida”, diz trecho dos autos.
Em conversa com a proprietária da empresa, A.S.P. conseguiu prints das conversas entre as funcionárias, na qual elas reconhecem que as acusações eram falsas.
“Nena, a gente já ligou pra polícia, já registrou boletim de ocorrência com a placa da moto, coitado do Homem e agora o que a gente faz?”, diz a conversa.
Para o advogado Pitágoras Arruda, o linchamento virtual promovido pelas duas empresas, além dos prejuízos emocionais, físicos e profissionais, ainda representa o risco de “saltar das telas” e se tornar agressão física.
“A atuação de justiceiros tem se tornado cada vez mais comum em nossa cidade. Imagine um pai de família, trabalhador, que levanta cedo todos os dias para pôr comida à mesa, ver seu nome em meio a tudo isso, correndo risco de ser preso, de apanhar e até mesmo morrer. E se o pior acontecesse? É de uma enorme irresponsabilidade o que essas duas empresas fizeram contra esse trabalhador”, afirmou.
O advogado ainda destacou que seu cliente tem sofrido danos emocionais por causa do ocorrido, tendo, inclusive, dificuldade para trabalhar, com medo de ser agredido fisicamente por causa dos efeitos da mentira espalhada.
AGRO & NEGÓCIOS
Indígenas Parecis mostram que produzir também é preservar a dignidade
Published
2 dias atráson
11 de junho de 2026By
Da Redação
Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, abriga uma experiência pioneira no Brasil: a produção agrícola conduzida por indígenas dentro de seu próprio território, de forma organizada, coletiva e com olhar voltado para o futuro.

Durante reunião com lideranças indígenas da região, os pré-candidatos Dra. Paula Boaventura, à Câmara Federal, e Antônio Galvan, ao Senado, ouviram relatos fortes sobre a realidade dos Haliti-Pareci, povo que há anos enfrenta burocracias, embargos, preconceitos e visões ultrapassadas sobre o que é ser indígena no Brasil atual.

fAdilson Muziwane/Paula Boaventura
A principal mensagem deixada pelas lideranças foi clara: o indígena de hoje não pode ser condenado a viver como se o Brasil ainda estivesse em 1500. A cultura permanece, a tradição permanece, a família permanece. Mas o mundo mudou. A alimentação mudou. A saúde exige melhores condições. A educação exige investimento. E a dignidade exige trabalho.
“Somos seres humanos, somos brasileiros e temos o direito de viver bem dentro do nosso território, através do nosso próprio trabalho”, resumiu uma das lideranças.

Os Pareci defendem uma política pública que reconheça a diversidade dos povos indígenas. Só em Mato Grosso, são dezenas de etnias, cada uma com sua história, seu tempo de contato, sua cultura e sua realidade. Por isso, segundo eles, não é possível que uma única visão ideológica, muitas vezes construída longe das aldeias, determine o futuro de todos.

A experiência agrícola dos Pareci mostra que é possível produzir, gerar renda, manter a cultura e melhorar a qualidade de vida. Arnaldo Zuni Zakaê relata que, antes da agricultura, muitas famílias dependiam quase exclusivamente de aposentadorias, cargos na saúde ou na educação. Hoje, a produção abriu novas oportunidades: trabalho nas lavouras, cooperativas, associações, operação de máquinas, gestão, pesquisa, tecnologia e distribuição de renda.
O resultado, segundo os relatos, aparece na vida real. A população aumentou, a alimentação melhorou, a mortalidade caiu e os jovens passaram a enxergar futuro dentro do próprio território. “Saúde não se faz só com remédio. Saúde se faz com alimentação”, afirmou Arnaldo.

Também chamou atenção a participação das mulheres indígenas. Sônia Aparecida Zoazo Kamaero, agricultora, formada em Direito e especialista na área ambiental, explicou que a produção não rompeu com a cultura familiar, mas se adequou a ela. Segundo ela, na tradição Pareci, a mulher sempre teve papel fundamental na colheita, na formação da família e na transmissão de valores. Hoje, além disso, participa das decisões técnicas e econômicas.

“O homem é o guarda-chuva, a mulher é o pilar. Um não anda sem o outro”, afirmou Sônia.
O que os Pareci pedem não é privilégio. É segurança jurídica. É o direito de planejar a longo prazo. É poder acessar crédito, licenciamento, tecnologia e comercialização sem viver sob ameaça permanente de que uma mudança política ou uma interpretação burocrática paralise tudo.

Antônio Galvan, ex-presidente da Aprosoja MT e da Aprosoja Brasil, defendeu que os indígenas tenham direito real ao uso produtivo de parte de seus territórios, sempre com responsabilidade. Para ele, a experiência Pareci prova que o trabalho melhora a vida nas aldeias e pode servir de exemplo para outras etnias que desejam produzir.

Dra. Paula Boaventura também reforçou compromisso com a regulamentação, com a segurança jurídica e com políticas públicas que respeitem a autonomia indígena. De origem Bororo, ela destacou a importância da família, da tradição e do desenvolvimento como caminhos que podem andar juntos.
A reflexão que fica é simples: não se combate pobreza mantendo povos inteiros dependentes de assistencialismo. Também não se preserva cultura impedindo que indígenas estudem, produzam, empreendam e decidam seu próprio futuro.
O povo Pareci mostra que tradição e modernidade não são inimigas. O indígena pode preservar sua língua, seus rituais, seus pajés, sua família, suas mulheres, seus jovens e, ao mesmo tempo, plantar, colher, comercializar, estudar, usar tecnologia e melhorar de vida.
O Brasil precisa abandonar a visão romântica e atrasada de que o indígena só é indígena se estiver isolado da modernidade. Ser indígena é pertencer a um povo, a uma história e a uma cultura. Mas também é ser cidadão brasileiro, com direito à dignidade, ao trabalho, à renda e à liberdade de escolher o próprio caminho.
Campo Novo do Parecis talvez esteja mostrando ao país uma das discussões mais importantes do nosso tempo: o futuro indígena não deve ser imposto por gabinetes, ONGs ou ideologias. Deve ser construído ouvindo quem vive na aldeia, quem planta, quem colhe, quem cria os filhos e quem sabe, na prática, o que significa lutar por dignidade dentro do próprio território.
Os Pareci foram pioneiros. Agora, o desafio político é transformar essa experiência em política pública séria, segura e respeitosa, para que outras etnias que desejem seguir esse caminho também possam ter oportunidade de produzir, prosperar e viver melhor.
por Luiz Henrique Menezes
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