Dia Internacional da Mulher
Amazônidas transformam suas realidades com liberdade e protagonismo
Publicado em
7 de março de 2025por
Da Redação
A floresta amazônica é lar de vozes femininas que fazem a diferença. Seja por meio da liderança, da resiliência ou do direito de aprender e ensinar, elas exercem suas liberdades para transformar a realidade todos os dias. Neste Dia Internacional da Mulher, 8 de março, a Fundação Amazônia Sustentável (FAS) apresenta histórias de amazônidas fortes, resilientes e líderes que lutam para escrever sua própria trajetória.
A região é fortemente marcada por sua singularidade geográfica. Os rios funcionam como as principais “estradas” que interligam municípios e comunidades tradicionais (ribeirinhas, indígenas e quilombolas). Esse cenário exige deslocamentos longos e resiliência para quem estuda, trabalha ou empreende em áreas urbanas, rurais e profundas.

Quem conhece essa realidade é Ivone Silva, que vive na comunidade Acajatuba, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro, em Manacapuru (a 93 quilômetros de Manaus). Ela nasceu e cresceu na mesma comunidade, onde teve sua mãe e seu pai como grandes exemplos de vida.
Desde pequena, enfrentou desafios para estudar: começou a frequentar a escola aos 7 anos e remava por duas horas para chegar às aulas. Aos 12 anos, precisou ir para Manaus para continuar os estudos. Mesmo diante dessas dificuldades, nunca desistiu.
“A essência da mulher amazônida é sermos fortes. Mesmo morando na floresta, somos grandes empreendedoras. Elas nunca desistem dos seus sonhos. São mulheres que acordam pela manhã, pegam um remo e uma canoa e vão atrás de conquistar seus objetivos”, declara.
Com 15 anos, começou a trabalhar como professora voluntária em uma escola de madeira, construída pelos pais das crianças da comunidade. Ao longo dos anos, sua dedicação à educação e à saúde comunitária cresceu. Mesmo após enfrentar um câncer de mama e superar a doença, manteve seu compromisso com a comunidade. Hoje, Ivone trabalha com agricultura, uma paixão que deseja fortalecer através da troca de conhecimento com outros voluntários na área, e é voluntária em educação e saúde.
“Liberdade para a mulher amazônica é termos nossos direitos e valores reconhecidos. Mulheres empreendedoras, professoras, médicas, agricultoras. Isso tudo gera um grande impacto”, complementa.

Professora e atual vice-presidente do Conselho de Administração da FAS, Izolena Garrido é um exemplo de superação. Tornou-se mãe solo aos 20 anos e enfrentou situações de discriminação, rejeição, humilhação e machismo. No entanto, por meio de sua formação como professora, teve a oportunidade de mudar a própria história, a dos filhos e até da comunidade Tumbira, localizada na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Rio Negro.
Com ajuda de outras pessoas, Garrido foi uma das fundadoras da comunidade Tumbira, tornando-se uma forte liderança feminina na luta por melhorias essenciais, como escola, poço artesiano, energia, centro social e outros. Sua busca por conhecimento não parou: cursou graduação, pós-graduação e diversas formações para fortalecer sua atuação em defesa da comunidade e do meio ambiente.

Outra mulher que luta para transformar a realidade da Amazônia é Valcléia Lima, ambientalista e superintendente de Desenvolvimento Sustentável de Comunidades da FAS. Nascida na comunidade quilombola Murumuru, a 40 quilômetros de Santarém (PA), Valcléia teve que superar desafios desde cedo para buscar conhecimento. Seu pai estudou apenas até a terceira série, mas sempre incentivou os filhos a estudarem, pois compreendia as dificuldades que enfrentariam por questões raciais.
Com muita dedicação, graduou-se em Gestão Pública, fez especialização em Inovação e Difusão Tecnológica e se destacou profissionalmente pelo trabalho no Projeto Saúde e Alegria, executado no Pará, e na coordenação do Programa Bolsa Floresta (PBF), implementado pela FAS no Amazonas. Com quase 30 anos de experiência, atua em projetos que visam promover um futuro mais justo, inclusivo e sustentável para as comunidades amazônicas.
“Sem dúvidas, estar em uma posição para representar as diferentes comunidades tradicionais da Amazônia é uma grande responsabilidade. Para mim, é uma honra ainda maior ocupar este espaço de luta pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia, o meu lar e lar de tantas outras mulheres”, compartilha a ambientalista.
Projetos que apoiam mulheres da Amazônia
A FAS desenvolve iniciativas que fortalecem e capacitam mulheres amazônidas. Uma delas é o “Parentas que Fazem”, um projeto voltado para potencializar iniciativas empreendedoras de mulheres, organizações e grupos indígenas do Amazonas que atuam no setor da sociobioeconomia. Em 2024, sua primeira fase capacitou 374 mulheres e apoiou cinco associações ao longo do último ano.
O “Parentas que Fazem” conta com o apoio do Google.org — a instituição filantrópica do Google — e é realizado em parceria com a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab) e a Rede de Mulheres Indígenas do Amazonas (Makira-E’ta).
Outra iniciativa é o “Empreendedoras da Floresta”, cujo objetivo é capacitar mulheres indígenas e ribeirinhas em habilidades empreendedoras, gestão de negócios e acesso ao mercado para o desenvolvimento de produtos inovadores em bioeconomia. O projeto está beneficiando 60 mulheres artesãs em três Unidades de Conservação (UCs) do Amazonas, que, ao longo de três anos, receberão mentoria financeira e um capital semente para viabilizar seus projetos. O “Empreendedoras da Floresta” é uma iniciativa da FAS desenvolvida em parceria com o L’Oréal Fund for Women.
Além desses, a instituição realiza o projeto “Conservação da Amazônia: uma aliança entre natureza e criatividade”, iniciativa executada com o apoio do grupo LVMH – Moët Hennessy Louis Vuitton SE. O projeto visa apoiar os negócios da floresta com o objetivo de combater o desmatamento, promovendo proteção ambiental com desenvolvimento sustentável. Em 2024, o projeto ofertou curso de gastronomia para mulheres da região do baixo Rio Negro. Durante quatro dias, as participantes receberam aulas teóricas sobre segurança dos alimentos e reconhecimento de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs).
“Hoje, a FAS celebra essas e outras histórias únicas de mulheres que reúnem força, resiliência e determinação, moldando a diversidade feminina. Cada mulher carrega sua própria história, personalidade e sonhos. Ser uma mulher amazônida também significa ser uma promotora do desenvolvimento sustentável e fazer a diferença pelo futuro de todas nós. A FAS parabeniza todas as mulheres da Amazônia que contribuem para um mundo mais sustentável e igualitário”, finaliza Lima.
Sobre a FAS
A Fundação Amazônia Sustentável (FAS) é uma organização da sociedade civil sem fins lucrativos que atua pelo desenvolvimento sustentável da Amazônia. Sua missão é contribuir para a conservação do bioma, para a melhoria da qualidade de vida das populações da Amazônia e para a valorização da floresta em pé e de sua biodiversidade. Com 17 anos de atuação, a instituição tem números de destaque, como o aumento de 202% na renda média de milhares de famílias beneficiadas e a queda de 39% no desmatamento em áreas atendidas.
AGRO & NEGÓCIOS
Indígenas Parecis mostram que produzir também é preservar a dignidade
Published
2 horas atráson
11 de junho de 2026By
Da Redação
Campo Novo do Parecis, em Mato Grosso, abriga uma experiência pioneira no Brasil: a produção agrícola conduzida por indígenas dentro de seu próprio território, de forma organizada, coletiva e com olhar voltado para o futuro.

Durante reunião com lideranças indígenas da região, os pré-candidatos Dra. Paula Boaventura, à Câmara Federal, e Antônio Galvan, ao Senado, ouviram relatos fortes sobre a realidade dos Haliti-Pareci, povo que há anos enfrenta burocracias, embargos, preconceitos e visões ultrapassadas sobre o que é ser indígena no Brasil atual.

fAdilson Muziwane/Paula Boaventura
A principal mensagem deixada pelas lideranças foi clara: o indígena de hoje não pode ser condenado a viver como se o Brasil ainda estivesse em 1500. A cultura permanece, a tradição permanece, a família permanece. Mas o mundo mudou. A alimentação mudou. A saúde exige melhores condições. A educação exige investimento. E a dignidade exige trabalho.
“Somos seres humanos, somos brasileiros e temos o direito de viver bem dentro do nosso território, através do nosso próprio trabalho”, resumiu uma das lideranças.

Os Pareci defendem uma política pública que reconheça a diversidade dos povos indígenas. Só em Mato Grosso, são dezenas de etnias, cada uma com sua história, seu tempo de contato, sua cultura e sua realidade. Por isso, segundo eles, não é possível que uma única visão ideológica, muitas vezes construída longe das aldeias, determine o futuro de todos.

A experiência agrícola dos Pareci mostra que é possível produzir, gerar renda, manter a cultura e melhorar a qualidade de vida. Arnaldo Zuni Zakaê relata que, antes da agricultura, muitas famílias dependiam quase exclusivamente de aposentadorias, cargos na saúde ou na educação. Hoje, a produção abriu novas oportunidades: trabalho nas lavouras, cooperativas, associações, operação de máquinas, gestão, pesquisa, tecnologia e distribuição de renda.
O resultado, segundo os relatos, aparece na vida real. A população aumentou, a alimentação melhorou, a mortalidade caiu e os jovens passaram a enxergar futuro dentro do próprio território. “Saúde não se faz só com remédio. Saúde se faz com alimentação”, afirmou Arnaldo.

Também chamou atenção a participação das mulheres indígenas. Sônia Aparecida Zoazo Kamaero, agricultora, formada em Direito e especialista na área ambiental, explicou que a produção não rompeu com a cultura familiar, mas se adequou a ela. Segundo ela, na tradição Pareci, a mulher sempre teve papel fundamental na colheita, na formação da família e na transmissão de valores. Hoje, além disso, participa das decisões técnicas e econômicas.

“O homem é o guarda-chuva, a mulher é o pilar. Um não anda sem o outro”, afirmou Sônia.
O que os Pareci pedem não é privilégio. É segurança jurídica. É o direito de planejar a longo prazo. É poder acessar crédito, licenciamento, tecnologia e comercialização sem viver sob ameaça permanente de que uma mudança política ou uma interpretação burocrática paralise tudo.

Antônio Galvan, ex-presidente da Aprosoja MT e da Aprosoja Brasil, defendeu que os indígenas tenham direito real ao uso produtivo de parte de seus territórios, sempre com responsabilidade. Para ele, a experiência Pareci prova que o trabalho melhora a vida nas aldeias e pode servir de exemplo para outras etnias que desejam produzir.

Dra. Paula Boaventura também reforçou compromisso com a regulamentação, com a segurança jurídica e com políticas públicas que respeitem a autonomia indígena. De origem Bororo, ela destacou a importância da família, da tradição e do desenvolvimento como caminhos que podem andar juntos.
A reflexão que fica é simples: não se combate pobreza mantendo povos inteiros dependentes de assistencialismo. Também não se preserva cultura impedindo que indígenas estudem, produzam, empreendam e decidam seu próprio futuro.
O povo Pareci mostra que tradição e modernidade não são inimigas. O indígena pode preservar sua língua, seus rituais, seus pajés, sua família, suas mulheres, seus jovens e, ao mesmo tempo, plantar, colher, comercializar, estudar, usar tecnologia e melhorar de vida.
O Brasil precisa abandonar a visão romântica e atrasada de que o indígena só é indígena se estiver isolado da modernidade. Ser indígena é pertencer a um povo, a uma história e a uma cultura. Mas também é ser cidadão brasileiro, com direito à dignidade, ao trabalho, à renda e à liberdade de escolher o próprio caminho.
Campo Novo do Parecis talvez esteja mostrando ao país uma das discussões mais importantes do nosso tempo: o futuro indígena não deve ser imposto por gabinetes, ONGs ou ideologias. Deve ser construído ouvindo quem vive na aldeia, quem planta, quem colhe, quem cria os filhos e quem sabe, na prática, o que significa lutar por dignidade dentro do próprio território.
Os Pareci foram pioneiros. Agora, o desafio político é transformar essa experiência em política pública séria, segura e respeitosa, para que outras etnias que desejem seguir esse caminho também possam ter oportunidade de produzir, prosperar e viver melhor.
por Luiz Henrique Menezes
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