Há domingos que poderiam ser apenas mais um dia de descanso. Para um grupo de voluntários de Cuiabá, porém, o domingo ganhou outro significado: é dia de levar carinho, comida, conversa, abraços e, principalmente, presença a idosos que vivem em um lar da Capital.

O grupo Buscando Sorrisos Cuiabá existe há cerca de oito anos e reúne aproximadamente 20 voluntários. Uma vez por mês, geralmente no terceiro domingo, parte deles deixa a própria casa e a família por algumas horas para preparar um lanche especial e dividir a tarde com os idosos.

Não existe grande estrutura por trás da ação. O que existe é vontade. Os próprios integrantes decidem o cardápio, dividem os custos e colocam a mão na massa. Tem pão de queijo saindo do forno, refrigerante, bolo, comida preparada com cuidado e, acima de tudo, gente disposta a sentar, conversar, ouvir uma história e oferecer um abraço.

Cláudia Cristiane Neves de Souza, supervisora em uma transportadora, participa há quatro anos e conta que a relação com os idosos já virou compromisso.
“É doar, de fato, o que a gente tem, que é amor e carinho. É vir e ouvir também, porque eles precisam ser ouvidos. Eu faço questão de estar aqui todos os meses e não abro mão.”
Segundo Cláudia, os idosos já reconhecem quando chega o domingo do Buscando Sorrisos. Sabem que naquele dia haverá um lanche diferente, preparado ali mesmo, mas sabem também que chegarão rostos conhecidos.
“É uma forma de fazer um domingo especial para eles.”

Para a advogada e gestora da saúde Lidiane Aburad, que chegou ao grupo há cerca de três meses, a experiência já mostrou que solidariedade não precisa começar com grandes coisas. Às vezes, começa simplesmente com algumas horas do nosso dia.
Casada e mãe, ela deixou a família em casa depois do almoço para ajudar na preparação do encontro.
“É gratificante passar um tempinho do meu domingo vendo as pessoas felizes. A gente pensa no cardápio com muito carinho para que eles se sintam bem acolhidos.”
E talvez seja justamente aí que esteja a essência do projeto: ninguém está apenas servindo comida. Está servindo afeto.

Francisco Grimes, mecatrônico e profissional da área elétrica industrial, participa há aproximadamente três anos. Ele conta que viveu 45 anos em Santa Catarina, acostumado a aproveitar finais de semana na praia. Hoje encontrou outra maneira de preencher parte do seu tempo.
“Aqui eu aprendi como a gente pode passar o tempo doando o nosso melhor, nossa energia e nosso sentimento.”
Francisco diz que os idosos conhecem as equipes e criam vínculos. Quando o grupo chega, alguns vão até a cozinha cumprimentar os voluntários e perguntar o que haverá para comer. O reencontro termina em sorriso e abraço.
Para ele, o que recebe em troca não tem preço.
“Aqui a gente aprende humildade, simplicidade, amor, compaixão e respeito.”

O administrador e vendedor de flores Joaci José Gaspar também encontrou na ação uma transformação pessoal. Aos olhos dele, cada visita traz uma alegria diferente e também uma lembrança muito particular: sua própria mãe, hoje com 94 anos.
“O dia que eu passei a participar, minha vida mudou totalmente para melhor.”
Joaci já não imagina simplesmente abandonar o trabalho voluntário. Diz que fez um compromisso com os idosos, com o grupo, com a sociedade e consigo mesmo. Quando perguntado se sua participação agora seria “vitalícia”, respondeu sem hesitar:
“Já é vitalício.”
O BOLO QUE TEM AMOR COMO PRIMEIRO INGREDIENTE

No meio de tantos gestos existe também um personagem que praticamente virou tradição: o bolo preparado por Silvânia Figueiredo, profissional da educação.
Perguntada sobre qual seria o principal ingrediente da receita, ela não falou em farinha, ovos ou açúcar.
“Amor. Muito amor.”

Silvânia participa há cerca de três anos. Mesmo quando alguma circunstância impede sua presença, tenta garantir que o bolo chegue.
Mas conviver mensalmente com idosos também ensina sobre a fragilidade da vida.
Ela conta que, às vezes, retorna ao lar e percebe que alguém com quem conversava já não está mais ali. Em outras ocasiões, encontra em uma cadeira de rodas alguém que, na visita anterior, caminhava normalmente.
São momentos que doem.
Ao mesmo tempo, são eles que fazem Silvânia perceber ainda mais o valor de estar presente agora.
“Hoje são eles. Amanhã pode ser você, pode ser outra pessoa. Eles gostam de dançar, gostam de ouvir histórias, gostam que você pegue na mão e saia dançando. Tirar um minutinho, meia hora e estar aqui é importante.”
A frase talvez resuma uma tarde inteira.
Porque envelhecer faz parte do caminho de todos nós.

E, quando os anos avançam, muitas vezes aquilo que parece pequeno passa a ter um valor enorme: alguém que chega, chama pelo nome, segura a mão, escuta uma história repetida, oferece um pedaço de bolo e permanece por alguns minutos.
O Buscando Sorrisos Cuiabá leva lanche. Leva bolo. Faz aniversários, celebra Dia das Mães e Dia dos Pais e, no fim do ano, prepara uma ceia de Natal e mobiliza doações para presentear os idosos.
Mas o que esses voluntários entregam não cabe em pratos ou sacolas.
Eles entregam presença.
E talvez a maior lição venha justamente daqueles que eles visitam: o tempo passa para todos.
Um dia somos nós que temos pressa. Amanhã, talvez, sejamos nós esperando alguém chegar.
Por isso, entre um pão de queijo, uma fatia de bolo, uma conversa e muitos abraços, esses voluntários mostram todos os meses que para mudar o domingo de alguém não é preciso ter muito. Às vezes, basta doar algumas horas, sentar ao lado e oferecer aquilo que dinheiro nenhum consegue comprar: carinho, atenção e amor.
E quando vão embora, fica uma dúvida bonita: afinal, quem saiu dali mais feliz — os idosos que receberam a visita ou os voluntários que tiveram a oportunidade de estar com eles?